Letramentos escolares: relações de poder, autoridade e identidades

Jakeline A. Semechechem, Neiva Maria Jung

Resumo


Neste artigo, partindo da perspectiva dos Novos Estudos de Letramento (STREET, 1984, 1993, 2014), temos como objetivo reconhecer organizações da fala-em-interação, a fim de discutir procedimentos, papéis sociais e identidades coconstruídas em eventos de letramentos escolares. Analisamos duas atividades de leitura, uma em aula de língua espanhola e outra em aula de língua portuguesa de um colégio público do Paraná. Os dados mostram organizações de fala-em-interação institucional em que as professoras controlam o sistema de tomada de turnos e apresentam instruções sobre como lidar com o texto naquele aqui e agora, e os alunos ratificam esses procedimentos, embora alguns apresentem também ações de resistência. Em termos de resultados, identificamos que ainda temos muito presente em nossas escolas uma pedagogização do letramento, em que regras para o engajamento dos participantes como professor e como alunos são continuamente afirmadas e reforçadas dentro de práticas que supostamente têm a ver apenas com usar o letramento e falar dele, confirmando desse modo relações de hierarquia, autoridade e controle por meio dessas práticas letradas (STREET, 2014).

Palavras-chave


Letramentos. Eventos de letramento. Identidades.

Texto completo:

PDF

Referências


ABELEDO, M. L. O. L. Uma compreensão etnometodológica da aprendizagem de língua estrangeira na fala-em-interação de sala de aula. Tese de doutorado, Instituto de Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2008.

BARTON, D. Literacy: an introduction to the ecology of writing language. 2. ed. Oxford: Blackwell, 2007.

______; HAMILTON, M; IVANIC, R .(Orgs). Situated literacies: reading and writing in context. Londres e Nova York: Routledge, 2000.

______; TUSTING, K. Introduction. In: BARTON, D; TUSTING, K. (Orgs). Beyond communities of practice: language, power, and social context. United States of America: Cambridge University Press, 2005. p. 1-13.

BLOOME et al. Discourse Analysis and the Study of Classroom Language and Literacy Events: A Microethnographic Perspective. Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, 2005.

CONCEIÇÃO, L. E. Estruturas de participação e construção conjunta de conhecimento na fala-em-interação de sala de aula de Língua Inglesa em uma escola pública municipal de Porto Alegre. 2008. 169 f. Dissertação (Mestrado em Letras) - Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, 2008.

CORONA, M. D. Fala-em-interação cotidiana e fala-em-interação institucional: uma análise de audiências criminais. In: LODER, L. L.; JUNG, N. M. Análises de fala-em-interação institucional: a perspectiva da análise da conversa etnometodológica. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2009.

DREW, P.; HERITAGE, J. Analyzing talk at work: an introduction. In: DREW, P.; HERITAGE, J (Org.). Talk at work: interaction in institutional settings. Cambridge: Cambridge University Press, 1992. p. 3-65.

DURANTI, A. Linguistic anthropology. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.

FISCHER, A.; PELANDRÉ, N. L. Letramento acadêmico e a construção de sentidos nas leituras de um gênero. PERSPECTIVA, Florianópolis, v. 28, n. 2, 569-599, jul./dez. 2010.

FORTES, M. F. Uma compreensão etnometodológica do trabalho de fazer membro na fala-em-interação de entrevista de proficiência oral em português como língua adicional. Tese de Doutorado em Linguística Aplicada. Programa de Pós-graduação em Letras. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2009.

FREITAS, A. L. P.; MACHADO, Z. F. Noções fundamentais: a organização da tomada de turnos na fala-em-interação. In: LODER, L. L; JUNG, N. M. Fala-em-interação social: Introdução à Análise da Conversa Etnometodológica. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2008, p. 59–94.

GARCEZ, P. M. Formas institucionais de fala-em-interação e conversa cotidiana: elementos para a distinção a partir da atividade de argumentar. Palavra, v. 8, 2002, p. 54-73.

______. A organização da fala-em-interação na sala de aula: controle social, reprodução de conhecimento, construção conjunta de conhecimento. Calidoscópio, v.4, n.1, 2006, p. 66 – 80.

______. A perspectiva da Análise da Conversa Etnometodológica sobre o uso da linguagem em interação social. In: LODER, L. L; JUNG, N. M. Fala-em-interação social: Introdução à Análise da Conversa Etnometodológica. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2008, p. 17–38.

HAMILTON, M. Expanding the new literacy studies: using photographs to explore literacy as social practice. In: BARTON, D., HAMILTON, M., IVANIC, R. (Orgs.). Situated literacies: reading and writing in context. Londres e Nova York: Routledge, 2000. p. 16-34.

JUNG, N. M.; GONZALEZ, P. C. A organização da tomada de turnos: socialização em sala de aula. In: LODER, L. L.; JUNG, N. M. Análises de fala-em-interação institucional: a perspectiva da Análise da Conversa Etnometodológica. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2009.

KLEIMAN, A.; ASSIS, J. A. (Orgs.). Significados e Ressignificações do Letramento. 1ed. Campinas: Mercado de Letras, 2016.

LODER, L. L. O modelo Jefferson de transcrição: Convenções e debates. In: LODER, L.; JUNG, N. (Orgs.). Fala-em-interação social: Introdução à Análise da Conversa Etnometodológica. Porto Alegre: Mercado de Letras, 126-161, 2008.

______; SALIMEN, P. G.; MÜLLER, M. Noções fundamentais: sequencialidade, adjacência e preferência. In: LODER, L. L; JUNG, N. M. Fala em interação social: Introdução à Análise da Conversa Etnometodológica. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2008, p. 39–58.

LOPES, M. F. R. A fala-em-interação da sala de aula contemporânea no Ensino Médio: o trabalho de fazer aula e fazer aprendizagem de língua espanhola. 2015. Tese de Doutorado (Doutorado em Linguística Aplicada) - Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015.

MAHER, T. M. “A Educação do Entorno para a Interculturalidade e o Plurilinguismo”. In: KLEIMAN, A. B.; CAVALCANTI, M. C. (Orgs.). Linguística Aplicada: suas Faces e Interfaces. Campinas: Mercado de Letras, 2007. p. 255-270.

MCHOUL, A. W. The organization of turns at formal talk in the classroom. Language in Society, v.7, 1978. p. 183-213.

O’CONNOR, M.; MICHAELS, S. Shifting participant frameworks: orchestrating thinking practices in group discussion. In: DIJK, T. Van (Org.). Discourse, learning and schooling. Cambridge: Cambridge University Press, 1996. p. 63-103.

OLSHER, D. Talk and Gesture: The Embodied Completion of Sequencial Actions in Spoken Interaction. In GARDNER, R; WAGNER, J. (Eds). Second language conversations. London: Continuum, 2004. p. 221-245.

PETERMANN, R. A fala-em-interação em sala de aula no ensino médio: participação e construção conjunta de conhecimento em uma equipe de trabalho. Dissertação (Mestrado em Letras) - Programa de Pós-graduação em Letras. Universidade Estadual de Maringá. Maringá, 2016.

PHILIPS, S. U. Participant structures and communicative competence: Warm Springs children in community and classroom. In: DURANTI, A. (Org.). Linguistic Anthropology: a reader. Malden, Mass.: Blackwell, 2001. p. 302-317.

RAMPTON, B. Language in late modernity: interaction in an urban school. London: Cambridge University Press, 2006.

SACKS, H.; SCHEGLOFF, E. A.; JEFFERSON, G. A simplest systematic for the organization of turn-taking for conversation. Language, Baltimore, MD, v.50, p. 696- 735, 1974.

______. Sistemática elementar para a organização da tomada de turnos para a conversa. Veredas, v.7, n. 1-2, p. 9-73, 2005. Tradução de SACKS, H., SCHEGLOFF, E. A.; JEFFERSON, G. A simplest systematic for the organization of turn-taking for conversation. Language, v. 50, 1974, p. 696-735.

SCHEGLOFF, E. Sequence Organization in Interaction: A Primer in Conversation Analysis, v. 1. Cambridge : Cambridge University Press, 2007.

______; JEFFERSON, G; SACKS, H. The preference for self-correction in the organization of repair in conversation. Language, Baltimore, v. 53, n. 2, 1977, p. 361-382.

SCHLATTER, M.; GARCEZ, P. M. Educação linguística e aprendizagem de uma língua adicional na escola. In: Referências curriculares do Estado do Rio Grande do Sul: linguagens, códigos e suas tecnologias. Porto Alegre: Secretaria de Estado da Educação/Departamento Pedagógico, 2009.

SEMECHECHEM, J. A. Letramento e identidades sociais em um município multilíngue no Paraná. Dissertação (Mestrado em Letras) - Programa de Pós-graduação em Letras. Universidade Estadual de Maringá. Maringá, 2010.

SINCLAIR, J. M., COULTHARD, M. Toward an analysis of discourse. Londres: Oxford University Press, 1975.

STREET, B. Abordagens Alternativas ao Letramento e Desenvolvimento. Palestra apresentada durante a Teleconferência Unesco Brasil sobre “Letramento e Diversidade”. King’s College, Londres, 2003c.

______. Cross – Cultural approaches to literacy. Cambridge: University press, 1993.

______. Foreword. In: BLOT, R. K; COLLINS, J. Literacy and Literacies: texts, power, and identity. USA: Cambridge University Press, 2003b. p. XI-XVII.

______. Letramentos sociais: abordagens críticas do letramento no desenvolvimento, na etnografia e na educação. Tradução Marcos Bagno. São Paulo: Parábola Editorial, 2014.

______. Literacy in theory and practice. Cambridge: Cambridge University Press, 1984.

______. Perspectivas interculturais sobre o letramento. Filologia e Linguística Portuguesa, Brasil, n. 8, p. 465-488, ago. 2006. Disponível em: http://revistas.usp.br/flp/article/view/59767. Acesso em: 12 fev. 2017.

______. Social literacies: critical approaches to literacy in development: ethnographic perspectives. London & New York: Longman, 1995.

______. What’s “new” in New Literacy Studies? Critical approaches to literacy in theory and practice. Current Issues in Comparative Education, Teachers College, Columbia University. v, 5(2), 2003a. p. 77-91.

______; LEFSTEIN, A. Literacy an advanced resource book for student. Canadá: Routledge, 2007.

UFLACKER, C. M. Fazer avaliar na construção do participante competente em sala de aula. Tese (Doutorado em Linguística Aplicada) - Programa de Pós-graduação em Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2012.

VIANNA et al. Introdução do letramento aos letramentos: desafios na aproximação entre letramento acadêmico e letramento do professor. In: KLEIMAN, A.; ASSIS, J. A. (Orgs.). Significados e Ressignificações do Letramento. 1 ed. Campinas: Mercado de Letras, 2016. p. 27-59.




DOI: http://dx.doi.org/10.22168/2237-6321.7.7.1.478-503

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Entrepalavras © 2012. Todos os direitos reservados.
Av. da Universidade, 2683, Benfica, CEP 60020-180, Fortaleza-CE | Fone: (85) 3366.7629
Creative Commons License
Entrepalavras (ISSN: 2237-6321) está licenciada sob Creative Commons Attribution-NonCommercial 3.0.