Propaganda “Agro, a indústria-riqueza”: uma análise da (re)produção de sentidos sobre a agricultura familiar

Alessandra Stefanello, Caciane Souza de Medeiros

Resumo


O Brasil, um país que tem sua história marcada por embates na/pela terra, agora recebe holofotes midiáticos pelo sucesso do agronegócio. Na tentativa de visibilizar esse sucesso, grandes emissoras produzem materialidades que põem em circulação o “tudo” que é o agronegócio, sendo uma dessas a Rede Globo de Televisão. Por isso, tomando como nosso corpus a propaganda “Agro, a indústria-riqueza do Brasil. Agricultura familiar é Agro”, buscamos analisar como se dá a (re)produção de sentidos acerca da agricultura familiar no discurso da/na mídia e compreender como é projetada, pela propaganda, a relação de sentidos entre agronegócio e agricultura familiar. Para tanto, filiamo-nos à Análise de Discurso materialista (doravante AD), fundada por Michel Pêcheux, que toma o discurso pela sua opacidade e sua heterogeneidade, a partir de determinadas condições de produção. A partir dessa perspectiva teórico-metodológica, veremos como o discurso da/na mídia tem um efeito de completude e de totalidade, buscando apagar determinados sentidos em detrimento de outros e, consequentemente, deslocando o que seria agricultura familiar a favor de um efeito de unidade no cenário agrário brasileiro. Assim, nosso estudo centra-se nos embates agrários, que atravessam não só nosso território, mas, sobretudo, nossa língua.


Palavras-chave


Agronegócio. Agricultura familiar. (Re)produção de sentidos. Mídia.

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DOI: http://dx.doi.org/10.22168/2237-6321-22081

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