Análise da organização temporal do discurso na expressão da incerteza em português brasileiro

Leandra Batista Antunes

Resumo


A prosódia, enquanto elemento estruturador do discurso, cumpre várias funções na sociointeração (FÓNAGY, 2003). Entre elas está a de expressar intenções do locutor frente ao conteúdo enunciado. No caso da expressão da incerteza em diversas situações de interação (perguntas de conhecimentos gerais, jogos televisionados, questionário semiespontâneo), a prosódia desempenha papel fundamental. Alterações tanto na frequência fundamental e na intensidade quanto nos elementos que caracterizam a organização temporal do discurso (relacionados à duração, ou ao tempo de articulação do que é dito) dão pistas ao interlocutor sobre o falante ter ou não certeza frente ao que é dito (SILVA, 2008; ANTUNES; AUBERGÉ; SASA, 2014). Assim, buscamos descrever, nas situações de interação já mencionadas, como funcionam as taxas de elocução e articulação, a presença de pausas, de prolongamentos, de self-talk mais o tempo decorrido entre a pergunta e o início da resposta (tempo de latência), sempre comparando respostas em que se julgou que o locutor tinha certeza e aquelas em que se julgou como expressão de incerteza. As taxas de elocução e articulação foram menores nas respostas com incerteza (o que indica uma fala mais lenta), houve pausas, prolongamentos e self-talk somente na expressão da incerteza e o tempo para iniciar a resposta no caso das respostas com incerteza foi maior que naquelas com certeza. Nas situações discursivas diferentes, a construção da cena enunciativa pode influenciar no uso mais ou menos acentuado dos mesmos parâmetros prosódicos de duração para diferenciar a expressão de certeza daquela de incerteza.


Palavras-chave


Prosódia da incerteza. Situações de interação. Organização temporal do discurso. Afetos sociais.

Texto completo:

PDF

Referências


ANTUNES, L. B.; AUBERGÉ, V.; SASA, Y. Certainty and uncertainty in Brazilian Portuguese: methodology of spontaneous corpus collection and data analysis. In: Proceedings of the 7th Conference on Speech Prosody. Dublin, 2014. p. 110-114.

ANTUNES, L. B.; AUBERGÉ, V. Análise prosódica da certeza e da incerteza em fala espontânea e atuada. Diadorim, n. 17, v. 2, p. 212-237, dez. 2015. Disponível em: . Acesso em jul. 2019.

AUBERGÉ, V. Prosodie et émotion. In: Actes des XIIèmes Assises Nationales du GdR 13, 2002. p. 263-273. Disponível em: . Acesso em ago. 2003.

AZEVEDO, L. L. Expressão da atitude através da prosódia em indivíduos com doença de Parkinson idiopática. Tese (Doutorado em Linguística). Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2007.

BAKHTIN, M. Os Gêneros do Discurso. In: BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 261- 306.

BARBOSA, P. Conhecendo melhor a prosódia: aspectos teóricos e metodológicos daquilo que molda nossa enunciação. Revista de Estudos da Linguagem, Belo Horizonte, v. 20, n. 1, p. 11-27, jan./jun. 2012. Disponível em: . Acesso em out. de 2014.

BARBOSA, P.; MADUREIRA, S. Manual de fonética acústica experimental. São Paulo: Cortez, 2015.

BOERSMA, P.; WEENINK, D. Praat: doing phonetics by computer. Software. Versão 6.1. 2019. Disponível em: .

COUPER-KUHLEN, E. An introduction to English Prosody. Tübingen, Niemeyer, 1986.

CRYSTAL, D. Prosodic Systems and Intonation in English. Cambridge: Cambridge University Press, 1969.

FIORIN, J. L. Tendências da análise do discurso. Estudos Lingüísticos, v. 19, p. 173-179, 1990.

FODOR, J. D. Psycholinguistics cannot escape prosody. 2002. Disponível em: . Acesso em abr. 2020.

FÓNAGY, I. Des fonctions de l’intonation: essay de sinthèse. Flambeau, n. 29, p. 1-20, 2003.

FONSECA, A. A. Pistas prosódicas e o processamento de sentenças ambíguas do tipo “SN1-V-SN2-Atributo” do português brasileiro. Dissertação de Mestrado. Belo Horizonte, Universidade Federal de Minas Gerais, 2008.

GROSJEAN, F.; DESCHAMPS, A. Analyse contrastive des variables temporelles de l’anglais et du français: vitesse de parole et variables composantes: phénomènes d’hesitation. Phonetica, n. 31, v. 3-4, p. 144-184, 1975.

HALLIDAY, M. A. K. Intonation and Grammar in British English. Mouton: The Hague, 1967.

KRAHMER, E. J.; SWERTS, M. How children and adults produce and perceive uncertainty in audiovisual speech. In: Language and speech, vol. 48, n. 1, p. 29-54, 2005. Disponível em . Acesso em 17 set. 2013.

MAC, D.; AUBERGÉ, V.; CASTELLI, E.; RILLIARD, A. Local vs. Global Prosodic Cues: Effect of Tones on Attitudinal Prosody in Cross- Perception of Vietnamese by French. Proceedings of de 6th Speech Prosody, 2012, p. 222-229.

MERLO, S.; BARBOSA, P. A. Séries temporais de pausas e de hesitações na fala espontânea. Cadernos de Estudos Lingüísticos, v. 54, n. 1, p. 11-24, 2012.

MORAES, João. A Entoação Modal Brasileira: Fonética e Fonologia. Cadernos de Estudos Lingüísticos. Campinas, n. 25, p. 25-66, 1993.

MORAES, J. From a prosodic point of view: remarks on attitudinal meaning. In: MELLO, H., PANUNZI, A., RASO, T (eds.) Pragmatics and Prosody: Illocution, modality, attitude, information patterning and speech annotation. Firenze: Firenze University Press, 2011. p. 19-38.

OLIVEIRA, M. do C. C. de et alii. O que os fonoaudiólogos e estudantes de fonoaudiologia entendem por fluência e disfluência. Revista CEFAC, São Paulo, v. 9, n. 1, jan/mar 2007.

PIKE, K. The Intonation of American English. Michigan: University of Michigan Press, 1945.

SILVA, J. P. G. A prosódia na expressão da dúvida e da certeza no português brasileiro. 171fls. Dissertação (Mestrado em Linguística). Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2008.

SILVA, P. C. G; SOUSA, A. P. Língua e Sociedade: influências mútuas no processo de construção sociocultural. Revista Educação e Emancipação, São Luís, v. 10, n. 3, set/dez.2017, p. 260-285.

WICHMANN, A. Attitudinal Intonation and the Inferential Process. In: Proceedings of the 1st Speech Prosody. Aix-en-Provence, 2002.

ZELLNER, B. Pauses and the temporal structure of speech. In: KELLER, E. (ed.) Fundamentals of speech synthesis and speech recognition. Chichester: John Wiley, 1994. p. 41-62.




DOI: http://dx.doi.org/10.22168/2237-6321-11960

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Entrepalavras © 2012. Todos os direitos reservados.
Av. da Universidade, 2683, Benfica, CEP 60020-180, Fortaleza-CE | Fone: (85) 3366.7629
Creative Commons License
Entrepalavras (ISSN: 2237-6321) está licenciada sob Creative Commons Attribution-NonCommercial 3.0.