A recategorização como processo de construção de objetos de discursos: quando grafitar é transformar a realidade

Francisca Poliane Lima de Oliveira, Maria Helenice Araújo Costa

Resumo


Pelos relatos que temos sobre a escrita, no decorrer da história, constatamos que o graffiti convive conosco há muito tempo. Atualmente, estas marcas “expressam com traços, letras e desenhos, as contradições implicadas na vivência urbana contemporânea”. A partir dessa premissa nos dedicamos a analisar uma obra que nos chamou a atenção por sua peculiaridade em termos de produção. Para tanto, nos apropriamos de uma concepção dinâmica de texto – em que este é tido como um evento comunicativo (BEAUGRANDE, 1997) – e também de uma noção de recategorização que aponta para além da materialidade textual (COSTA, 2007; JAGUARIBE, 2007). Além das observações acerca do fazer nesta obra específica, buscamos ainda mostrar o poder de transformação social, cognitiva e estética que os graffitis podem operar na realidade. Estudar mais detidamente uma situação de produção textual, como essa que trouxemos aqui, nos fez ver como se processa a discretização do mundo nos discursos e como se dá a junção da vida com a arte. Tomar o exemplar desta análise do modo como o fizemos  nos auxiliou a pensar atentamente acerca dessa característica de dinamismo das produções de linguagem sobre a qual viemos falando e ainda a mostrar que a recategorização é um processo que ocorre também em nível extratextual, ou seja, sobre a realidade.


Palavras-chave


Recategorização. Graffitis. Texto.

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DOI: http://dx.doi.org/10.22168/2237-6321-21104

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